03 dezembro 2016

Cinco Minutos.

Ele pediu que mantivesse meus pés no chão.
Queria que eu não sonhasse...

Me condenou a ter cinco minutos de alegria pra sempre,
apenas cinco minutos e fim.

... E tudo não passaria de uma lembrança estupidamente boa.

Ele não me conhece!
Sou feita de uma agonia fútil.
Estou sempre em queda livre e não tenho teto!

Não há medidas, metades, nem meios...
E isso me protege da mais completa insanidade.

Sendo assim, não posso me demorar ali...

Naquele coração tão submerso.
No olhar que vaga tão perdido.
Nas promessas e prisões que ele mesmo construiu.

... Ainda que as tenha revestido de amor.



15 abril 2016

CARTA DE (S) AMOR

A chuva se pronunciava lá fora
Mas nem uma gota chegou a tocar no chão, aquele que de tão quente causava vertigem.

Tolos.

Não ouviram falar que não se pode confiar cegamente nos sinais da natureza?
Ela é uma dama, dessas que se faz sádica por diversão.

Ele a comparava com ela, dizia que seus olhos escondiam tempestades.

O encontro deles não poderia ser em vão e certamente não ficaria impune.

O oceano se interpôs, os separando como continentes.

As palavras dele caíam como gotas de ácido sobre a cabeça dela.
Seu coração era como um relógio antigo, batendo atrasado e ecoando por dentro da moça que o esperava.

Ela era como uma casa assombrada de todos os seus espíritos, vagando na fúnebre esperança de em alguma vida voltarem a se encontrar.


15 julho 2015

O Mais Absoluto Som Do Silêncio.

Eram horas tardias, como de costume.
O vento travava uma luta contra as folhas das árvores.
... Não haveria vencedor dessa vez.

A noite foi invadida pelo ladrar de cães irritadiços.
A essa altura só o sussurro agonizante do tempo pairava no seu ventre.
Como a areia que escorre com ânsia pelo vidro
Almejando encontrar o sul pra recomeçar.

Foi assim, nessa noite com ausência de cor (como suas unhas)
que ela compreendeu a distância.

As notas de verbena reverberavam pela sua memória.
Cada esquina da cidade luz se fazia presente.
A tal ponto, que quase se podia tocar.

A saudade a abraçou e brilhou com tanta força
Que absorveu toda a escuridão.
Então já era manhã.

Agora dentro dela era quente
E suas lembranças tinham gosto de leite com mel.

Au Revoir.

#France 

15 fevereiro 2015

IN.SONE

O silêncio da madrugada ensurdeceu meus olhos de oceano.
Nada mais faz sentido.
Nem as cores que agora se perdem no breu.
Era pra ser só mais uma madrugada insone, mas meu mundo virou do avesso e esse não era meu lado certo.
O amarelo batendo à porta do passado.
O menino de vidro que volta e meia vive a me assombrar.

Não chore criança, não chore.
O sol vai se chocar com o arco.
E todos os sentimentos voltarão para as suas devidas caixas.
É triunfo.
Que todas as saídas a partir de hoje sejam sortie!
E que nem menos doze, esfrie de volta esse coração.
As mãos dadas voltarão a andar em vielas, nas minúsculas ruas, nas ladeiras e escadas intermináveis.
O quarto estará sempre quente, com chá a espera e delícias para adoçar o céu.
Da boca emergem palavras de amor.
Que engraçada essa palavra!

Ame criança, ame.
O barulho da madrugada acalmou meu coração.
As coisas começaram a fazer sentido e agora as cores emergem do breu.

Mas, por Deus!
Era só pra ser uma madrugada insone...

28 agosto 2014

Ele roubou meu caminhão.

O teto estava cada vez mais próximo, como quem vai sufocar.
Ela - eu, já tão viciada em tédio, nem se abalava.
Era rotineiro, costumeiro, insólito estar ali.

Ela - eu, vivia em um conto de Bukowski.
Entre um trago e outro trocava os lençóis.
Não restava mais álcool e ele a odiaria por isso.

Já não havia traço de luz.
Ela - eu era toda breu.

Como quem invade o quarto chutando a porta ele entrou.
Não veio sutil, não pediu permissão.
O garoto laranja se apossou de tudo a seu redor.

Ela - eu sorriu com dentes de pérola.
Amarelados.

Ele segurou seu - meu rosto.
Roubou o ar, sugou, beijou.
Línguas, lábios, saliva.

Eu hesitei, tentei fugir.
Não era hora de deixar ninguém entrar.

Mas o garoto laranja era mais esperto...
Disse que eu lhe dei todas as armas para lutar.
Então, ele roubou meu caminhão.

28 abril 2014

Desadormecer.

A tempestade passou deixando um tapete de estrelas no céu.
Embaixo dele as luzes da cidade oscilam entre o laranja e o azul.
Tudo é mais claro e calmo, como quando vejo você dormir.

Já não é mais um fardo viver insone.
Tenho agora o som da sua respiração como companhia.
E tudo me parece mais agradável.

Tolice a minha acreditar que passaria impune à sua presença.

_Diabos, que sorriso!

Eu poderia listar mil motivos, que sussurram à minha janela,
  para que eu tivesse me apaixonado.
Mas se faz desnecessário sempre que você segura minha mão,
  entorpecido pelo sono.

Tenho vivido em estado lisérgico,
  desde o dia em que seus lábios pálidos tocaram os meus.
A gargalhada ecoa solta por todas as esquinas,
  preenchendo de cores até os prédios mais insólitos.

Do fundo do breu, sua voz se faz súplica...
Pede para que eu abra os olhos.
E diz que o sonho ficou no sofá, naquela quinta feira.
Hoje nós estamos acordados e era só isso que nos faltava para viver.

20 abril 2014

Retrato em PB.

É tão cedo ainda e seus acordes já me acordaram.

Quando desperto, a primeira coisa que procuro são eles.
Que me pregam peça, dançando entre o verde e o azul, olhando fundo em mim. 
Sussurrando coisas que ainda não entendo.

Estamos correndo livres no frio, eu com sua calça de flanela, você com a maldita touca que nunca conseguiu colocar do lado certo.

(Droga, eu sempre sorrio quando você faz isso.)

Não precisamos mais mendigar amor pelas ruas NYC.
Sua timidez canta coisas lindas, enquanto as folhas de outono caem sem pressa.

Os nossos reflexos se espalham por toda a cidade e nós somos como um retrato em PB.
Eternizados em carteiras, murais, bolsos e memórias.




(E se eu posso pedir alguma coisa ao vento é que o brilho jamais se apague.
Desejo que o nosso riso jamais se cale.
E peço ao tempo encarecidamente, que os olhos, as mãos e a pele nunca deixem de se tocar...
Como no dia em que nos conhecemos.)